terça-feira, 24 de novembro de 2009

Você se vende?


Quer saber de uma verdade? Eu não suporto gente feliz o tempo inteiro. Isso me cansa. Juro, chega a me dar uma dor terrível nas costas. Fora o embrulho no estômago e a reviravolta no cérebro. É que eu não acredito que uma pessoa normal pode ser sorridente e serelepe sempre. Todo mundo tem problemas, ora bolas. É claro que cada um lida de uma forma, mas não estampe um ar faceirinho na cara se você está completamente fodido.

Não há nada de errado em assumir a fodelança. A vida de ninguém é 100%. Não precisa enganar, vestir a roupa efusiva e fingir amar o mundo, os pássaros e os gatinhos perdidos na rua. Tem gente que mente. Vende uma Felicidade Miojo, aquela que fica pronta em três minutinhos. Acredito que a vida é feita de ciclos e em toda aquela babaquice clichê que um dia é da caça e o outro do caçador. Também acredito que quando tudo está bom, sempre tem algo para melhorar ou estragar, depende do nosso olhar.

Já me ferrei algumas vezes, assumi meus riscos e erros. E tudo bem. Isso mesmo: tudo b-e-m. Detesto humores suspeitos, gente que dá bom dia até para as paredes, que tem voz mansa e fala baixinho, com medo de acordar os vizinhos. Acho importante buscar o fundo da gente, por isso eu grito. E assumo numa boa que tenho todos os sentimentos do mundo: contraditórios e puros, contraditórios e sombrios. Sinto inveja, medo, horror e ciúme. Tenho meu lado egoísta que anda por aí arrastando correntes.

Não consigo fingir. Quem me conhece sabe. Fica escrito na minha testa, meu olho me entrega, minha voz toma as rédeas da situação e diz que não está gostando, minhas sardas mudam de cor. Posso ter em mim todos os defeitos do mundo, mas carrego uma franqueza sem limites, que seguidamente me deixa em saias justérrimas e me causam transtornos temporários. Franqueza que vive de mãos dadas com meus humores coloridos: azul, preto, branco, verde, rosa, lilás, nude (que é tendência).

Posso de vez em quando ser ranzinza. Mas ainda prefiro ser desse jeito do que me vender de uma forma bonita, pra todo mundo acreditar no que a imagem diz. Muita gente é assim: aos quatro ventos, diz uma coisa. Lá no fundo, é outra. Eu não sei me vender, só me dar. E essa, pra mim, é a melhor prova de que eu ainda (não) sei viver.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Quase uma smurf



Preciso diminuir a minha velocidade. Trocar de marcha e aprender a ir mais devagar. Ser menos, não correr tanto. Viver um pouco menos estressada. Deixar o meu volume mais baixo. Não falar em trabalho depois que chego em casa. Aprender a relaxar e não pensar em nada. Não ficar maquinando hoje o que preciso fazer na semana que vem. Ser menos, bem menos. Menos doida. Menos mimada. Menos braba. Menos doce. Menos ácida. Menos turrona. Menos difícil. Menos temperamental. Menos intensa. Menos sonhadora. Menos acumuladora de sentimentos. Menos cinderelesca.

Pode soar engraçado, logo eu, justo eu, falar isso. Eu, que sempre me orgulhei de me entregar tanto. Colocar tudo de mim nas coisas, sem a menor preocupação de sair viva ou com o joelho ralado. Eu, com meu exagero proposital, que gostava de levantar bandeiras de só-vive-quem-se-dá. Acho que ando cansada. E um pouco desacreditada no futuro.

Será que a vida pode ser mesmo um conto de fadas? Tenho que pensar menos nisso e viver mais a realidade que borra meu rímel todos os dias. É, a vida é assim. A gente vive em um mundo com gente suja e que fica espiando o momento certo de créu. Não, não é pra dançar o funk, é pra te jogar em um abismo. Sem a menor dó, sem a menor vergonha na cara. Eu, ordinária, ainda acredito que quem pisou na bola ainda tem salvação. Por que não dar mais uma chance? A pessoa fez maldade uma vez, ela pode se regenerar, pode ter sido apenas um deslize, certo? Errado! Ela faz de novo e de novo e de novo. Tenho que ter menos veia sadomasoquista.

Já pensou se nada for aquilo tudo? Não é pra somar tanto, é o que tenho me dito todas as manhãs antes de levantar. Diminui, diminui, baixa a bola, eu falo baixinho, bem baixinho no meu ouvido. Sussurro, com um pouco de tristeza, que tudo pode mudar em um passe de mágica. Pode dar tudo errado. Posso continuar trabalhando muito e ganhando pouco. O amor da minha vida pode ir e nunca mais voltar - ou então achar um outro alguém que não dê tanta dor de cabeça e não viva uma vida tão cinematográfica. Ou então encontrar uma européia que entenda de poesia, arte e dança moderna, que fale sobre coisas que eu não sei e de quebra seja linda, tipo capa de revista. Posso chegar aos 40 anos velha, feia, obesa, sem amor, sem filho, sem cachorro e sem teto. Meu Deus, só de pensar eu me arrepio. Mulher tem mania de inventar a própria vida. Eu invento e a minha é tão linda que dá um medo gigante ter um pedaço dela arrancado dos meus sonhos. Mas eu sigo, firme, um pouco menos confiante. Porque eu preciso ser menos.

E anota aí: preciso ver menos filmes de mulherzinha. Que mania essa, a gente vive achando que pelo menos uma vez vai ter um dia daqueles. Que é isso, minha gente? Por que tanta ilusão em um só corpo? Por que tanto desejo em uma só mente? Eu queria pelo menos um dia menos. Não, não é um dia a menos. Quero muitos dias a mais, se me for permitido. O que eu quero é um dia menos inteira. Porque nem sempre eu consigo viver com tudo o que existe em mim.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O amor é dono da razão



Para mim, duas coisas são fundamentais: olhares e voz. Tem coisa mais linda que um olhar? Sinceros, tímidos, reveladores, provocantes, que suplicam, agradecem, sorriem. E voz? Ela acalma e diz quem a pessoa é. Pela voz, a gente descobre muita coisa.




Quando eu era pequena, meu pai cantava uma música que era assim "tá na hora de dormir, não espere o papai mandar, um bom sono pra você e um alegre despertar". Eu geralmente chorava, pois não queria dormir, gostava de ficar acordada brincando ou incomodando o meu irmão. Mas a musiquinha era uma sentença, a ordem final, era ir pro berço e fim de papo. Às vezes, eu dizia paizinho-só-mais-um-pouco. Quando a coisa apertava, era paizinho pra cá e pra lá. Era engraçado, a música só não me causava pânico por causa da voz do meu pai. Ele tem voz grossa, quando perguntava se eu tinha feito o tema de matemática dava até medo. Mas a voz dele, se eu prestasse atenção, tinha doçura escondidinha.




Meu pai me ensinou muitas coisas, umas eu aprendi na hora e outras dei muitas cabeçadas até entender. Mas ele sempre esteve ali para o que eu precisasse. Me deu aulas de física, química e matemática, coisas complexas que nunca entraram direito nessa minha cabeça oca. Me ensinou a andar de bicicleta e a ser gente. Sempre disse para que eu tratasse bem desde o tio que limpa o chão até o presidente de uma empresa, afinal, a gente nunca sabe o dia de amanhã, o mundo dá voltas e a educação e gentileza são bem-vindas em qualquer idade e/ou circunstância.




A gente já brigou, é claro. Não foi uma nem duas nem três vezes. Foram muitas. E eu demorei para entender o motivo (ou os motivos). Até que descobri que cada ser humano, quando nasce, tem uma matriz. Aquela matriz é que define mais ou menos o que vem pela frente. A minha é totalmente sentimentalóide, a dele é completamente racional. Um é líquido e o outro é sólido.




Sei que é difícil entender isso: a gente tem a triste mania de pensar que todo mundo enxerga com os nossos olhos. Ilusão (de ótica?). A gente tem o vício de achar que precisa convencer o outro a pensar da nossa maneira, porque é a nossa que está certa. Existem diversas formas certas. Falando nisso, o que é certo afinal de contas? Acho que certo é a gente dizer o que sente, não importa a idade.




Hoje, pai, quero te desejar toda a saúde, felicidade e paz do planeta. E te dizer, da forma mais racional possível, que eu te amo muito. Porque o amor, apesar de ser um sentimento, abriga toda a razão do mundo. Feliz aniversário!

Com tudo em dia


Vamos para com esse negócio: o tempo serve para somar e não para diminuir. A gente ouve muitos boatos por aí, um deles é que o casamento é o melhor método anticoncepcional que existe; outro é que aos poucos tudo vai sendo esquecido e desaprendido. Fico levemente entristecida, não por mim, mas pelos que pensam dessa maneira. Minha forma de pensar foi e vai ser sempre a mesma, porque eu acredito. E acredito mais ainda em quem faz questão de acreditar, mesmo que existam rumores de que é assim.


Eu sei que pouco a pouco tudo se modifica. Sabe o começo? Ah, o começo é lindo! Flores, bilhetinhos e todo aquele fogo que a paixonite proporciona. Depois, a calmaria. O amor chega e se instala, logo pega o controle remoto e fica zapeando. Nos primeiros meses, juras de amor. Nos outros, o surgimento do pavor. Conheço muita mulher que não aguenta ouvir a voz do próprio marido todo o santo dia. Por que isso acontece? Por que as pessoas não têm paciência? Por que não insistem? Para mim, relacionamento também é insistência. Eu insisto muito comigo mesma. E esclareço: quando você está vivendo um relacionamento estável, não pode perder a paciência por bobagem. Certas coisas você precisa deixar passar, não dá para acumular picuinhas, elas viram sofrimento e mágoa e acabam resultando em distanciamento. Por isso, insisto comigo. Calma, eu digo para mim. Respira, eu fico repetindo. E passa. Mas preciso insistir, muitas vezes, para me convencer. Por que tem gente que não consegue? Para mim, e tenho isso claro, é preguiça. Só pode.


As pessoas não querem mais se conquistar. Por falta de saco, vergonha ou desleixo. Qualquer relacionamento precisa de manutenção. É necessário passar um antivírus de quinze em quinze dias, uma vez por semana ou uma vez por mês. Não importa a sua frequência, mas uma relação precisa fazer exames periódicos. Todo mundo cuida da saúde. Mulheres fazem as unhas, homens a barba. Você chama o jardineiro para aparar a grama e cuidar das margaridas. Por que é tão difícil ter um relacionamento saudável? Chamo de saudável relações em que ambos se cuidam, prestam atenção um no outro. Falta de atenção mata qualquer sentimento. Se você ama, esteja atento. Você olha para os dois lados antes de atravessar uma rua, não olha? Muitas vezes, olha e olha de novo, vá que venha algum louco a mil por hora?!? Então, olhe para o seu relacionamento, olhe para a pessoa que está ao seu lado. Mas, por favor, olhe com os olhos abertos. De preferência, os olhos do coração.


No comecinho, todo mundo se paquera. Você quer descobrir os segredos e desejos do outro, e ele os seus. Você cuida cada gesto, para desvendar a pessoa. Por isso, é tão bonito dizer a-fulana-quando-está-nervosa-mexe-na-corrente-do-pescoço. O fulano olha-pra-baixo-de-um-jeito-tão-inocente. Agora eu pergunto: hoje, agora, em um segundo, você lembra coisas que gosta na pessoa que se relaciona? No que ela te encanta? Quais são as maiores qualidades? Você identifica quando ela está alegre ou triste ou perturbada? Porque as pessoas mentem, se escondem atrás de um tudo-bem ou de um deixa-pra-lá.


Com o tempo, você deita ao lado e dorme. Não faz mais cafuné, não pega na mão, não abraça, não beija, não faz gentileza, não deixa bilhetinho embaixo do travesseiro, no carro, na mochila, na agenda, na geladeira, no espelho do banheiro. Com o tempo, você deixa de transar e de dizer que ama. Deixa de dar abraço forte e beijo de língua. De ver o sol se pôr. De chamar para olhar uma coisa bonita. De escrever uma carta. De comprar o iogurte preferido dele. De elogiar a cor da blusa dela. De lembrar, no meio da tarde, de mandar uma mensagem no celular. De fazer surpresas bobas. De aparecer quando o outro menos espera. De adivinhar o que o outro pensa. Com o tempo, você esquece coisas importantes. Do começo. Da história. Dos momentos pequenos e bons. Com o tempo, o beijo fica morno. O sexo, quando existe, fica mecânico, automático, sem graça. Fica tudo programado. Com o tempo, acaba a luz da vela, a musiquinha, o clima. Com o tempo, você acaba não reconhecendo mais a pessoa pela qual você se apaixonou. Agora eu pergunto: precisa de tudo isso?


Quem sabe a gente corre contra o tempo? Quando vejo casais de velhinhos se divertindo, andando de mãos dadas, indo ao cinema e saindo para jantar ou dançar, fico feliz. Que coisa bonita essa de conquistar sempre e sempre e sempre. De verdade, acho nobre. O amor é um sentimento tão belo para ficar assim esquecido, jogado, deixado de lado. Cada vez que vejo um senhorzinho olhando para a senhorinha com aquele olhar de poxa-você-é-tudo-o-que-eu-queria, abro um sorriso. E penso que vale, sim, a pena acreditar. Não é mágica, é só cuidado. Bem mais simples do que parece. Mas é preciso querer com o corpo inteiro.


Que sorte a minha, de me dar tanto assim e perceber que o meu tempo só soma.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tem gente que não consegue suportar


Não era cedo, mas isso pouco importava. Ela nunca ligava para horários. Tinha uma vida um pouco desregrada, apesar da rotina. Todo dia acordava, lia o jornal, tomava café preto sem açúcar nem adoçante, comia uma fatia de mamão, duas bolachinhas sem sal e abria a janela. Ficava horas olhando o céu, mesmo com chuva. Ela apreciava as coisas pequenas, como respirar ar puro ou fazer um carinho no gato da vizinha. Não gostava nada de ouvir boatos e falatórios, por isso se mantinha distante de fofocas e de gente com cara de má. Achava que as pessoas se entregavam pelos olhos, pensava que olhando fundo em algum olho descobriria o mundo.


Depois do café, as visitas. Fazia trabalho voluntário, sentia necessidade de ser útil, amenizar dores alheias e acalentar corações um pouco congelados pelo desgosto que a vida trouxe. Se perguntava se a vida trazia mesmo desgosto e, automaticamente, respondia para si mesma: sim, ela traz, mas nós é que precisamos decidir para onde ele vai. Seria possível passar a perna no desgosto? Talvez, e era isso que ela fazia. Vivia um dia de cada vez, fazia seus trabalhos voluntários, olhava para o céu durante tempos infinitos, escrevia para ganhar algum dinheiro e bebia. Bebia muito. Saía todas as noites. Era bonita, mas não se deixava envolver. Tinha limites, não deixava ninguém se aproximar muito. Por essa razão, não tinha amigos verdadeiros. Não era só, pois se amava de tal forma que beirava o exagero. E sentia uma ponta de sei-lá-o-quê.


Era o sei-lá-o-quê que causava uma tormenta no sistema nervoso central: imaginava como seriam os anos mais na frente. Ficaria só? Dedicaria todo o tempo do mundo ao gato da vizinha? Era bonito e coisa e tal essa coisa de ser boa, de fazer o bem, de trabalhar o suficiente para se manter, nem mais nem menos. Ela achava um absurdo quem se matava trabalhando e não tinha nenhum prazer. Por isso, trabalhava o necessário e gastava tudo em noitadas. Bebia muito e beijava bocas. Chegava em casa tarde, tinha a insônia como parceira e esquecia os nomes dos homens que frequentavam sua casa. Não se envolvia com nenhum: era tudo sexo. Sem palavras, só ação. Sem carinhos nem confidências nem amanhã-eu-te-ligo: ela mentia o telefone. E o nome. E a idade. E tudo. Ela mentia muito. Pensava que assim ficaria protegida.


O sei-lá-o-quê um dia começou a revirar o esôfago. Opa, ela pensou. O que está havendo? Um dia os questionamentos entram pelos buraquinhos da janela. Então, ela decidiu fazer uma retrospectiva emocional. Percebeu que não conseguiu combater tudo o que ele havia lhe causado. Engoliu as interrogações, tomou uns goles de conhaque e pegou a arma da gaveta.


- É isso aí.


Foi tudo o que ouviram antes do primeiro e último disparo.