sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bate bola



"Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza, você não merece o meu melhor."



(Marilyn Monroe)



Não que eu seja a dona da verdade, mas prefiro quando estou certa. Quem não é assim? Tão bom a gente poder falar com propriedade, fazer um cof cof, erguer o queixo, empinar o nariz e sair por aí pregando nossas pseudoverdades em murais imaginários. Melhor ainda é conquistar uma legião de seguidores fiéis, que se agarram em nossos terços e se ajoelham por nós. Já cansei de falar: gosto mesmo de confete, adoro quando concordam com o que eu digo. Não sei lidar com críticas, sou meio mesquinha quando o assunto é eu-eu-mesma-e-Irene-contra-a-parede.

Nem sempre estou bem-humorada e isso me incomoda um pouco. Coisas muito pequenas podem modificar o meu dia. Uma frase sua, por exemplo, que desça pelo canal errado pode mudar tudo. Sabe espinha de peixe quando desce arranhando? Certas coisas passam assim pela minha garganta. Algumas, inclusive, entalam no meu ouvido. Outras não consigo digerir nem com sal de frutas. Quando falo sou incisiva. Acho que todo mundo tem que ter opinião - e as minhas geralmente são fortes. Vezenquando entro em brigas erradas. Geralmente, entro pra ganhar. E seguidamente eu perco. Tenho pensado em não desperdiçar tanta energia no que não merece minha atenção. Mas sou curiosa e acho que preciso conhecer tudo. Me foco em coisas que eu gosto, tenho uma dificuldade absurda em manter a concentração em assuntos que considero bobos. Não gosto de política e não entendo bulhufas do assunto. Francamente, não sei como vários homens podem correr atrás de uma bola - e ficarem empolgados com isso. Acho o Gerard Butler um muso e o Leonardo DiCaprio feio de dar dó. Sei reconhecer quando uma mulher é bonita, mas confesso que procuro um defeito até na Megan Fox - sem sucesso, lógico.

Meu dedão da mão direita é diferente do da mão esquerda e durante muito tempo tive problemas com isso. Já fui a maior consumidora de Band Aid da face da terra, apertava o dedo até ele ficar do tamanho do outro (o coitado quase morria esmagado e o sangue não circulava direito). Você não deve estar entendendo nada: eles têm o formato um pouco diferente, inclusive a unha. Um dedo é mais gordinho e baixinho que o outro. Já o outro é mais esbeldo, dedo Gisele Bündchen. Sempre tive vergonha deles, o engraçado é que ninguém percebia, só as manicures. Eu já chegava mostrando olha-meu-dedo-é-diferente, pra que ninguém me olhasse como se eu tivesse alguma anomalia genética. Tenho uma machinha no pescoço, no lado direito. Quem vê de longe diz que é um chupão. Muita gente já me olhou esquisito, do tipo porra-essa-mina-tá-com-um-chupão-animalesco-e-ainda-sai-com-o-cabelo-preso? Já tive muita neura com isso, sempre andava de cabelo solto pra não ouvir nenhum tipo de gracinha maliciosa sobre o assunto.

Fiz de tudo pra estragar o meu namoro. Apareci horrivelmente descabelada e feia na frente do meu namorado no segundo encontro (sendo que, no primeiro, xinguei ele). Sabotei, encanei com coisas ridículas, coloquei o medo na frente de coisas mais importantes e deixei ele lá na primeira fila, com direito a pipoca e refri. Meu medo começou a ficar cansado, com dor nas costas. Então, lentamente, com muita autoterapia e conselhos ao pé do ouvido, ele resolveu mudar de cidade. Volta e meia manda presentes e vezenquando uns postais. Eu jogo tudo fora, mas quando ele vem visitar eu tenho que ser hospitaleira, meus pais me educaram direitinho.

Me sinto, frequentemente, uma farsante que escreve um monte de abobrinhas que ninguém lê. Então, abro minha caixa de e-mails e me delicio com cada carinho que recebo. Me sinto, frequentemente, como alguém que nunca vai conseguir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. E quer saber? Eu nunca quis, sem mentira nenhuma. Não pretendo que a minha literatura vire um Best Seller. (Hello, se virar eu tô topando!) O que eu quero é sentimento, envolvimento, entretenimento. Eu quero é afrouxar um riso, extrair uma dor. Eu quero é que você use meu texto como espelho, que reflita, se enxergue, se entregue.

Me sinto, frequentemente, bombardeada por um mundo que não sei se suporto. Excessos e faltas. Sou movida por eles, por sentimento, sonho e lágrima. Tem gente que não entende meu estilo de ser e me doar. Para esses, eu digo que não vou desistir. Vou continuar, preciso continuar. Mesmo que o caminho seja cheio de lama, mesmo que pessoas-monstro apareçam: eu vou fechar os olhos e acreditar num mundo mais bonito. Eu vou abrir os olhos e viver um mundo mais bonito. Eu vou manter meus olhos na tela, meus dedos no coração e fazer do seu mundo um lugar mais bonito. Ah, eu vou!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

De olho no retrovisor


Lembrei de uma blusa preta que eu tinha, manguinha longa, borboleta bordada, paetês rosa pink. Uma das minhas preferidas. Tenho esse lance com roupa, algumas dão sorte, outras servem pra ir ao médico, entrevistas de emprego, funerais (sempre achei muito chique dizer "funeral", como os americanos), tal e coisa. Quem já não teve a Calça Da Sedução? Aquela que você veste e pensa hoje-vou-me-dar-bem. E o Sutiã Up Da Sorte?A gente veste e sente o poder subir pelo dedão direito do pé. Chame do que quiser, mas pense um pouco sobre isso: todo mundo tem qualquer tipo de amuleto, patuá, reza, três pulinhos ou algo parecido com bobagem meramente esquizofrênica que garante qualquer tipo de autoestima momentânea. O momento crucial do agora-eu-tenho-o-mundo-colado-no-meu-salto-10cm. Ou um mantra que faz os neurônios cantarolarem qualquer tipo de bobagem que faça a autoestima subir em um trio elétrico e pular feito doida que tomou energético com uísque.


Não tem nada mais cretino do que ignorar o que um dia fez parte da gente. E naquele dia que era especial e tenso eu usava a blusa preta de manguinha longa com borboleta bordada, cheinha de paetês rosa pink. Me sentia feliz, meu coração parecia que estava em uma calça 34, apertado, sem ar, justinho, esmagado. Falta de ar e um frio que passava pelo estômago, intestino, pulmão e vizinhança. Foi quando ele apareceu e o mundo parou de rodar por alguns momentos, para depois girar feito ventilador na velocidade máxima. Não sei explicar, mas abri um sorriso sorrido e pensei tudo-se-modificou.


Na segunda vez, a Calça Da Sedução e uma blusinha preta, com uma águia bordada. Então, eu o vi. Ele lá, cantando com a cabeça para o lado, aqueles olhos que contavam histórias e prometiam rumos diferentes. Eu, propostas escondidas em acordes, a águia bordada e os olhos. Aqueles olhos. Entre um gole e outro de água com gás, gelo e limão, descubro que a vida pode ser o paraíso quando se tem palavras certas e gestos calculados. Não dormi, tantas eram as promessas rondando minha cabeça que retrocedia e tinha trejeitos cada vez mais infantis.


Na terceira vez, um beijo. Esperado, sonhado, dormido, acordado. Calmaria e tempestade, juntas, melhores amigas, tão confidentes que trocavam segredos e abraços. A partir daí, um turbilhão, reviravolta, tumulto, virada. Eu lembro de ter achado que tudo era mentira. E lembro de que tantos questionamentos me sacudiram mostrando a verdade. Não queria ver, queria viver. De vez em quando a gente fecha os olhos, se fixa na emoção, procura deixar a razão de lado. Coloquei a verdade em um canto da estante. Até que um livro derrubou ela no chão. E eu tive que me abaixar pra juntar a bagunça.


Eu já disse que não tem nada mais cretino do que ignorar o que um dia fez parte da gente? Meu Deus, como eu adorava aquela blusa! Um dia, joguei fora. Ela, meus cacos e os retalhos de uma história que começou meio torta. Não sobrou nada, nem saudade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Décadence avec Élégance



“Usar um brilhante grande no dedo significa apenas que você tem muito dinheiro - não diz nada em relação à elegancia.”


(Christian Dior, no livro O Pequeno Dicionário da Moda)



Me chama de ranzinza. Diz que sou impaciente. Me atira na cara que sofro de mau humor crônico. Depois, me joga na parede e me chama de lagartixa. Ou de jacaré. Ou de qualquer coisa com rabo - porque eu tenho e é grande. Desculpe, mas não suporto pessoas que dão risada alta, são amigas de todo mundo e ficam se espalhafatando por aí.

Sabe aquela gente que ri demais, dá tapinha nas costas demais, fala demais, se mete demais? Apesar de gostar do muito e ser fã do exagero, espera um pouco, peraí, tenha dó, vai com calma. Se eu não te conheço, não venha mostrando toda a dentadura para o meu lado, não encoste no meu braço para falar, não pergunte sobre a minha intimidade. O que é meu, eu guardo. O que eu quero, mostro. Com a experiência de vida pesando nas costas, a gente aprende (um pouquinho) em quem deve ou não confiar, com quem pode ou não contar.

Nunca gostei de quem fala muito alto, faz esparro, grita, dá gargalhadas fenomenais de tudo e acaba se tornando o centro das atenções por berrar para o mundo uma felicidade inexistente. Para mim, tenho isso bem claro, gente assim não é feliz. Sinceramente, não. E não tente me convencer, tampouco diga que sou azeda. O mundo não é uma risada sem fim, duvido de humores assim. E, principalmente, acho que tem lugar para tudo.

Uma coisa é você estar em casa assistindo qualquer programa engraçado e morrer de rir. No cinema, ver uma cena hilária e dar uma gaitada - em coro - de mil e noventa decibéis. Mas em consultório de ginecologista, no ambiente de trabalho, na fila do banco, na mesa do restaurante, por favor, mantenha a classe e a compostura. Não gosto de quem não sabe se portar. Existem lugares e lugares. Se você quer gritar no boteco, grite. Se quer dançar no meio da rua, dance. Mas entenda que num escritório fechado é bom lembrar que existem outras pessoas. E elas não são obrigadas a ouvir a sua conversa no telefone, seus gritos histéricos, suas risadas mal educadas, seus batuques na mesa, sua reclamação pelo dia infernal. Fique com seus problemas longe da vida de quem nada tem a ver com isso.

"Quando você ficar triste que seja por um dia e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero..."
(Amor pra recomeçar, Frejat)


Muitos adolescentes, pelo fogo e falta de noção, ficam se agarrando em parques e lanchonetes. Lugar de nheco-nheco é em casa, sem ninguém vendo, a intimidade não tem que ser exposta. Vejo que muita gente perdoa os velhinhos que se atravessam na fila da padaria sem pedir licença porque são velhinhos. Peraí, a educação não pode envelhecer nem ficar com falta de memória. As coisas não podem ser desculpadas em função de idade ou classe social. Educação e classe independem do sexo e a quantidade (ou falta) de grana no banco. Sabe aquela criancinha que fica correndo no restaurante e dando nos nervos de quem está calmamente comendo? Para mim, e isso é sério, não tem desculpa. Culpados? Pai e mãe. Sei que a língua é o chicote do cu, mas meus filhos não serão assim. Não mesmo, pois vejo muitos pais que levam livrinho, canetinha e boneco para qualquer lugar. Criança precisa de entretenimento, senão enche o saco. Mas não acho que tudo deve ser desculpado. Os idosos podem passar na frente, as gestantes também. Mas que não usem as rugas e a cria na pança para fazer o que bem entendem. Isso acho sem vergonhice. E detesto gente ordinária.

Alguns confundem autenticidade com falta de educação. Risos demais, abraços, confidências, tudo sem a menor intimidade. Não gosto. Não tenho mais saco nem tempo para social-grátis. Não tenho a menor paciência para fingimentos. Não consigo, me consome, me sinto presa. Bom mesmo é sorrir com vontade, ficar de cara fechada com vontade, fazer tudo com vontade. Porque sem vontade já basta a quantidade de obrigações diárias que a gente tem.

Azar do Personagem

Tem mais uma promoção rolando no blog.
Quer ganhar um livro do Reginaldo Pujol Filho?

"Azar do personagem é a certeza de que todo mundo ri do azar dos outros. São 14 contos cheios de humor, ironia e tentativas de brincar (e muito) com a linguagem. O autor, percebendo que é deus de seus personagens, resolveu assumir de vez esse papel e não poupar nenhum deles, nem a si mesmo. Para isso, joga com o destino de escritores, peças de xadrez, casais, críticos, psicólogos e também se diverte com palavras, letras e sinais gráficos nem tão usuais. Literalmente, azar dos personagens."

Fonte: http://www.naoeditora.com.br/catalogo/azar-do-personagem/
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Quer participar?
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Então escreve pra mim contando qual é o teu personagem preferido. Pode ser Shrek, Zorro, Didi Mocó, Chapolim, tanto faz. É só me falar o nome e o motivo. Por exemplo: meu personagem favorito é a Cinderela porque me identifico com a história dela, tô sempre esperando o príncipe e já perdi uma Havaianas na escadaria. Inventa. Aumenta. Mas me escreve. Manda e-mail para o clariscorrea@gmail.com e, por favor, escreve "Promoção Azar do personagem". Começa agora e vai até o dia 10 de novembro, próxima terça-feira. O nome do ganhador vai ser divulgado no dia 11/11. Sei lá, achei bonita a data. Então, corre lá, manda uma resposta criativa e fica torcendo.
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Um beijo e boa sorte,
Clarissa

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Tem alguém aí?


Hoje lembrei de uma amiga. Pessoa especial, com um coração cheio de espaços vazios, não por falta de amor, mas por excesso de discernimento. Ela sempre soube exatamente o que valia ou não a pena. E eu sempre pensei assim: um dia vou aprender. Lembro que ela ouvia tudo o que eu tinha pra dizer e, olha, eu dizia muita coisa. Me repetia, mesmo filme, mesmas falas. E ela nunca me deu um pause - muito menos um stop.


Era uma época em que eu me dava muito e recebia pouco (ou seria nada?). Hoje, lendo relatos e ouvindo histórias, me dou conta que a gente insiste muitas vezes no mesmo ponto. Quem sabe assim o desejo não vira uma verdade? Uma forma ingênua de esfregar na cara do mundo o que existe dentro do coração. Incertezas, dúvidas, amores vazios. Eu precisava encher alguns amores. É que tem gente que precisa desesperadamente de emoção pra viver. Por isso, inventei uns amores pra mim. E digo isso sem a menor vergonha ou pudor. Eu queria e precisava de uma vida mais bonita. E, não sei se você sabe, a vida da gente só fica completa com um amor. Eu, por me sentir tão incompleta e por pensar tem-tanta-gente-ruim-se-dando-bem-e-eu-aqui-legalzinha-da-silva-só-quebro-a-cara, decidi por conta própria criar um mundo perfeito.


É muito fácil inventar uma história de amor, basta ter um suposto par. Você conhece uma pessoa, se encanta, constrói coisas e passa a acreditar naquilo. Tudo o que é dito é interpretado da sua maneira. Tudo o que é vivido é sentido pelo seu ponto de vista. Então, tudo fica lindo. Até que você percebe que viveu tudo sozinha. E volta pro início, repassa os acontecimentos e se dá conta de que foi ilusão. A ilusão tira o sossego da gente. "Nada vale a minha paz", não sei quem disse essa frase, mas acho ótima.


Com a maturidade, percebi que se alguém gosta de mim alguém gosta de mim. A regra é clara, a frase é tão simples que até parece mentira. Como poder ser tão simples? Sendo. O amor não é complicado para surgir, ele só é complicado de manter. Nada fica na mão de um só, porque o amor é feito de dois. E essa é uma importante parte: ninguém ama sozinho. Você não pode levar um relacionamento nas costas. Você não pode carregar sozinha uma relação, ainda mais se for inventada.


Um dia a gente cansa de contar amores. Ainda mais pra mim, que sou péssima em matemática. Uma hora também cansamos de inventar amores. Mesmo pra mim, que gosto de criar tantas coisas. Hoje lembrei da minha amiga. Falei com ela e, apesar de ter namorado, anda se sentindo sozinha. Me peguei pensando em como deve ser difícil ter um amor real e sentir uma solidão real.


Em um relacionamento, é importante cada um ter o seu espaço. Individualidade, peça indispensável no guarda-roupa. Só é preciso um certo cuidado pra que ela não traga um acessório indesejado e monte um look egoísta (sim, até a individualidade tem limite. Quando passa do ponto vira egoísmo puro). Gosto da solidão desejada, não da que faz doer. E vi que muita gente se sente só em um relacionamento, o que acho péssimo. É claro que ninguém precisa estar colado o tempo todo. Se a gente precisa de oxigênio pra viver, uma relação também precisa. É bom dar uma ventilada no ambiente, abrir janelas, deixar o sol entrar, fazer a energia circular. Mas sem tirar os olhos da outra pessoa. Porque quem ama sempre presta atenção no outro.